17 de jun de 2006

VERNISSAGE

Thamar


Sua imagem enquadrada pela janela, za-rei;

No céu azul de Paris, nuvens em alto relevo

Ao longe, Versailhes é uma colméia!

Aconchego mediterrâneo, Acapulco

Lençóis brancos , teus braços, abraços

orquídea orvalhada, flor de baunilha perfumada

bambus na sacada

A chuva caindo no pátio

escultura grega molhada

Botticelli e a mulher nua

encantada

A estrada ...

Olhos mergulhados no nada

capa e espada, Versailhe fala de saudades

Memórias na pele guardadas!

Zeus por Dânae

Thamar

Era na postura da palmeira que Dânae mais admirava o grande deus, pai de todos os deuses, o grande Zeus. Quando seus alvos pés enlaçavam a nuca do poderoso e suas mãos pequenas descansavam sobre suas coxas capazes de suportar o peso do mundo. Naquela insólita moldura, traçada por suas pernas, o olímpico rosto tinha uma beleza indescritível.

Muitas eras depois, em um tempo ao qual os mortais chamariam de Renascimento, um escultor transformaria aquela imagem em escultura procurando traduzir, na nobreza do Carrara, a força, a beleza e a sedução daquele momento, mas nem mesmo o nobre Carrara seria capaz de suportar a plenitude de Dânae ou a luz fulgurante do olhar de Zeus.

A plenitude, assim como a luz, é intangível sendo possível apenas sentir, presenciar, jamais reproduzir em toda a sua beleza e completude e era plenitude e beleza que Dânae sentia quando o braço de Zeus enlaçava seu corpo pequeno como o de todos os mortais.

Zeus era temido e amado. Grande e poderoso, governava o Olimpo com mãos de ferro e justiça humana. Apaixonado, vibrante, vigoroso, disfarçara-se de fogo, de chuva, de ouro e de mil e uma outras formas para seduzir e conquistar. Para Dânae nada disso fora necessário: o que via em Zeus era o próprio Zeus, e isto era o suficiente.

Ele era alto, forte e quase inatingível. Era o pater familias do Olimpo e sob sua responsabilidade dormia o destino da humanidade. Dânae era apenas uma mortal comum, e jamais teria imaginado ser vista por ele, mas aconteceu e maravilhada não teve em seus braços um deus, mas um homem em toda a sua extensão e a extensão humana de Zeus - seus medos, suas dores - era o que mais lhe encantara.

Dânae gostava de reter, entre suas mãos, o rosto do grande deus. Nesses momentos, os que antecediam a transformação no grande urso, a voz dele era suave como o chilrear dos rouxinóis e no sussurro dos ventos trazia o sonho e a sedução. Então Dânae passeava os dedos por sua face, tocava-lhe o cabelo tecido em neve e cinza, desenhava sobre a pele o contorno dos olhos. Queria dizer-lhe que estava ali não com o deus, mas com o homem. No milagre do encontro existia apenas um homem e uma mulher e não importava que um deles fosse deus... Até mesmo os deuses necessitam sentir-se humanos, cansados, doídos. Tristes, amargurados e Dânae buscava em si reservas recônditas de doçura com as quais pudesse suavizar o belo rosto da divindade.

Amava em Zeus a mistura de força e fragilidade, doçura e firmeza. Um corpo forte - cuja visão causaria medo e morte a qualquer mortal – que lhe tocava como uma brisa suave; a voz do trovão chilreando em seus ouvidos. O equilíbrio dos extremos. Um homem, um deus; tão forte que necessitava de amparo, tão grande que não passava de um menino...

A palmeira transformou-se em ponte levando Dânae a sentir o fluído da vida inundar seu corpo. Sorveu sua taça de ambrosia enquanto o urro do grande urso ecoava sobre a terra!